Friday, 13 November 2009

A minha Maratona do Porto - Depois da prova

A sensação de atravessar a linha de meta de uma maratona é única. Aquele momento fugaz condensa imensa coisa. É o momento em que as privações da família, os sacrifícios de fazer alguns treinos para os quais não tínhamos vontade ou o sofrimento da própria prova fazem sentido. É difícil explicar o profundo significado daquele lapso de tempo a quem não está por dentro deste fenómeno, mas trata-se de algo intenso e único e que nos inunda de prazer e satisfação.
No meu caso, aquele instante significava ainda que tinha conseguido ultrapassar definitivamente e com sucesso a lesão do primeiro trimestre do ano e que tinha conseguido reconfirmar, ainda este ano, a minha condição de maratonista. Lembro-me bem das palavras que ouvi do fisioterapeuta durante os tratamentos que fiz sobre os erros cometidos por muita gente que se dedica tardiamente, com alguma intensidade, à corrida (como é o meu caso) e da sua afirmação de que, se eu fosse sensato, não deveria voltar a correr maratonas.
Provavelmente ele tem razão, mas o ser humano não se satisfaz com uma vivência permanentemente sensata. Quantas e quantas vezes é na insensatez que encontramos caminhos que nos completam.

Apesar de não ter alcançado o objectivo de correr abaixo de 3h30m por uma margem relativamente pequena, estava muito satisfeito pela prova. Depois de cortar a meta e de receber a minha medalha vejo o Fernando Andrade e o João Meixedo, sendo saudado por ambos com um fraterno abraço. Afinal eles tinham acabado de fazer excelentes provas e estavam satisfeitos com isso. Abraço também o João Fernandes (que grande prova que ele fez!!!) e sinto vontade de descansar.
Era o tempo de saciar a sensação de sede que tive muitas vezes durante a prova e que o medo de cometer excessos me tinha impedido de satisfazer. Bebi rapidamente duas garrafas de água e apanhei uma maça que comecei a comer. O meu cansaço era muito grande e sem pensar em mais nada cedo à tentação de me sentar nos bancos que estavam à nossa disposição. O espaço disponível era exíguo, pelo que não havia muitas alternativas: ou me sentava ou então entrava na fila de espera para as massagens ou então saia daquela área, ficando privado de ter acesso a água, por exemplo.

À medida que o tempo passava (comigo sentado), a sensação de mal estar aumentava. Recordo-me que saudar o Ricardo e o António pouco depois deles terem chegado, mas a verdade é que eu me estava a começar a sentir bastante mal. Já não conseguindo estar sentado, aproveito então os bancos corridos para me deitar esperando, com isso, que as coisas melhorassem. Infelizmente acontecia o contrário: à medida que o tempo passava eu ficava pior. As mãos pareciam estar ligadas a uma tomada eléctrica e a certa altura já tinha dificuldade em levantar-me. O meu estado chamou a atenção dos amigos que estavam por perto e em pouco tempo um atleta que se apresentou como médico abeirou-se de mim para me tentar ajudar. Apalpou-me o pulso para tentar saber se haveria algum probema cardiaco e pergunta-me se tinha feito alguns exames antes da prova. Respondo-lhe que sim (fiz prova de esforço há poucos meses) e tento manter o diálogo. Vendo que eu tinha o monitor cardiaco pergunta-me se andei muito tempo a correr à volta dos 180 bpm. Respondo-lhe que poucas vezes devo ter passado dos 150, mas a verdade é que o meu estado piorava e nesta fase já nem me conseguia aguentar de pé. Os musculos das pernas estavam em péssimo estado, com cãimbras dolorosas.

Perante este cenário, esse atleta pede para me levarem à tenda da Cruz Vermelha, para onde sou transportado de maca. Para além do mal estar geral, as dores dos musculos das pernas são cada vez mais fortes. Quem me tratou rapidamente chegou à conclusão de que seria necessário medicar-me. Ministram-me um injectável intramuscular para relaxar os musculos e algum tempo depois começo, efectivamente, a sentir algumas melhorias. Durante todo este tempo estou deitado numa maca e coberto para evitar o frio. Os meus amigos vão passando por mim para ver o meu estado e para me dar ânimo, embora tenha persentido neles algum choque pelo mau estado a que cheguei. Acreditem que eu próprio estava algo desapontado com esta reacção, mas não era possível controlar aquilo.

O meu estado não me permitia ter uma noção muito precisa do tempo. De qualquer forma devo ter estado na tenda da Cruz Vermelha durante uns 30 minutos. Foi o tempo suficiente para recuperar minimamente e para conseguir abandonar o local pelo meu próprio pé e regressar até casa. Fui advertido de que não deveria conduzir, pelo que foi um dos amigos que levou o meu carro até casa.

Esta reacção negativa superou largamente aquilo que me tinha acontecido em 2008. Nessa altura também tive um período pós-corrida em que me senti mal, mas não foi nada que se parecesse com aquilo que sucedeu agora. O que ditou, então, a diferença?
Não tenho conhecimentos suficientes para saber o que terá acontecido, mas admito que o problema tenha estado na deficiente alimentação ao longo de toda a prova. Fiz apenas uma toma de gel aos 30 Km e fui bebendo apenas pequenos tragos de água. No ano passado, em contrapartida, fiz três tomas de gel. Talvez esse facto me tenha levado a chegar a limites de esforço mais fortes do que seria desejável.
Para além disso, acredito que o facto de ter cedido à tentação de me sentar logo após a prova tenha causado o problema das cãimbras. Se tivesse caminhado por mais 5 ou 10 minutos talvez as coisas tivessem levado outro caminho. De qualquer forma a exiguidade do espaço não facilitava nada que se fizessem grandes caminhadas.

Enfim, foi um episódio desagradável, mas que, felizmente, não teve quaisquer consequências. Esta semana já treinei e as sensações que tive foram coincidentes com o estado de forma que sentia antes de correr a maratona. Até ao final do ano conto fazer a Volta a Paranhos e a S. Silvestre do Porto. Não sei se participarei ainda em mais provas, mas pelo menos estas estão garantidas. E claro, para o ano haverá, pelo menos, mais uma maratona!

12 comments:

hugo10 said...

Treinar mais esses abastecimentos, pois fazer uma maratona com pequenos tragos de água não há corpo que aguente...
Espero realmente que esteja bem, e já agora onde posso fazer a inscriçao da Volta a Paranhos???
Bons Treinos , um abraço

MPaiva said...

Inscrições para a Volta a Paranhos:

Clube Spiridon de Gaia
Rua da Corredoura, 128 - Cave
Apartado 3039
4430-801 Avintes

Informações para:
manuel.costa@cerne.pt - 912685291

Custo:
€ 5,00 até 30/11/2009
€ 8,00 até 05/12/2009

Ricardo Baptista said...

Miguel,
Eu acho que o problema foi mesmo a hidratação, tens de melhor essa parte na corrida, e depois o beberes duas garrafas assim de enfiada e parares abruptamente também não deve ter ajudado.
Mas o importante é que recuperaste e estás bem.
Um abraço.

José Capela said...

Miguel,

Apesar de tudo parabéns pela prova que fizeste. Depois de uma longa paragem por lesão, foi muito positivo.
Quanto ao mal estar no fim da maratona, não tenho competência para me pronunciar sobre o assunto.
Mas em minha opinião, obviamente a alimentação é muito importante.
O que posso dizer é o que fiz e tenho feito nas maratonas:
-Pequeno almoço tomado antes três horas: 1)Três colheres de sopa de flocos de aveia adicionando a mesma quantidade de água levar 1,5 minutos ao micro ondas, depois juntar uma colher de mel e amendoas.
2) de seguida cerca de 120 gramas de Nestum mel preparados com água quente.

3) Um café expresso

Durante a maratona: Nos primeiros 20 Km beberico uns goles de água em cada abastecimento. Depois aos 22 kms tomo a primeira saqueta de gel, e nos abastecimentos uns goles de bebida isotónica e as vezes água.Aos 28 kms a segunda saqueta e aos 34 a terceira sempre como o procedimento da bebida isotónica e água como o efectuado na primeira.

Obviamente estou habituado a estes procedimentos.

Abraço

José Capela

Rui Pena said...

Caro Miguel,

O que importa é que estejas bem... E depois fazes os exames para veres se está tudo bem mesmo.

Que venha Paranhos!

Já agora, obrigado por partilhares esta parte da tua maratona... isto também faz parte do "maratonista"... e é sempre bom para quem lê poder aceder à experiência do outro.

Obrigado

António Almeida said...

Olá Miguel
mais uma vez os meus parabéns, fizeste uma grande maratona, aliás do pessoal da blogosfera acho que estivemos todos muito bem (dentro dos objectivos realistas e ao alcance da cada um como é evidente).
Quanto ao teu mal estar após a maratona é algo que já não é novo e terás que ver bem o porquê.
Estou como o Capela não tenho competência mas ainda assim quer-me parecer que a hidratação e alimentação durante a prova (pricipalmente esta) não foi suficiente.
Comigo aconteceu algo parecido e por isso o encostar aos 39 kms, faltou-me o 3º gel (só levei 2 mas bem cedo percebi que tinha feito asneira, não sei o que me passou pela cabeça para ter feito isso), ainda fui comendo umas passas mas...
Também por estar o dia que esteve pode ter levado a menos ingestão de água.
Boa recuperação e bom fim de semana, eu vou visitar a "mãe".
Abraço.
AAlmeida

Maria Sem Frio Nem Casa said...

que chatice isso Miguel...

era bom que se identificassem as causas...

espero que já estejas recuperado e que esses sintomas não tenham sido sinal de nada de grave

Um beijinho e Parabéns por mais uma Maratona

maria

José Alberto said...

Olá Miguel,

É pena que a sua vitória não tenha podido ser convenientemente festejada, como merecia, por força do acontecido.

Não deve ter sido nada fácil, mas o importante é que já passou.

De qualquer modo fica a experiência que certamente será útil para próximas experiências.

Abraço e boa recuperação

José Alberto

luis mota said...

Olá Miguel!
Agora é mais fácil para nós falarmos mas na tarde de domingo só descansamos quando soubemos que estavas bem. Isso é o mais importante.
Fico contente em saber que pensas efectuar uma Maratona no próximo ano. Se for em Portugal certamente estarei presente.
Uma boa semana e boa volta a Paranhos.
Luís Mota

Susana said...

Olá Miguel! Soube do que aconteceu, e espero que já estejas bem! Nunca fiz uma maratona, mas vejo pelo meu pai, o esforço que faz em treinos longos e toda a dedicação. O que é certo é que estamos sempre a aprender.
Uma boa recuperação!

João Paulo Meixedo said...

Olá Miguel, companheiro de luta.
Não tenho experiência nenhuma para me pronunciar, mas o que eu sei é que inicialmete me parecias em forma, e também estranhei que nunca bebesses nos abastecimentos. Como viste, bebi sempre e sempre sem sede.
Quanto aogel, ainda não percebi bem a necessidade. Efectivamente ingeri um que o Vitor me deu lá pelos 37 kms e soube-me bem, mas estava preparado para fazer a prova sem nada disso.
Quanto ao resto: baixaste a tua marca, como aliás fizeste este ano nas outras distâncias.
Parabéns, um abraço e até Paranhos.

F. Marinho said...

Olá Miguelmaratonista «antes quebrar que torcer». Cuidado! Já fiz 1 pequeno comentário sobre esta situação mas, pelos vistos, não colou. A FALTA DE SAIS MINERAIS AINDA POR CIMA COM A INGESTÃO 2 GFAS DE H2O DE UMA ASSENTADA LOGO NO FIM DAQUELE ESFORÇOAINDA AUMENTA MAIS ESSE DÉFICE, ALIADO À NÃO ENTRADA DE QQ SUPLEMENTO ENERGÉTICO EQUILIBRADO, ISTO É, isotónico, poderá explicar em parte o que te aconteceu. há que encontrar as causas todas disso para não te voltar a acontecer. Lê, se puderes, o nº 154, salvo erro, da Revista Spiridon, entre outros. Parabéns e um abraço

 
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