Como já aqui referi, a preparação correu muito bem. Consegui a motivação suficiente para treinar o volume suficiente para fazer uma boa prova (à minha dimensão, como é óbvio) e sentia-me, por isso, bastante confiante.
Os meus objectivos para esta prova, por ordem decrescente de importância, eram:
- Acabar;
- Acabar bem;
- Fazer a segunda metade mais rápido do que a primeira;
- Conseguir quebrar a barreira das 3h30m.
Para isso defini o seguinte plano de prova:
- Correr os primeiros 15 km à média de 5:15/km;
- Correr à média de 5:00/km entre o 15º e o 25º km;
- Correr à média de 4.45/km a partir do 25º km.
Se conseguisse cumprir este plano tinha a certeza de conseguir alcançar todos os meus objectivos, embora tivesse a noção de que não seria fácil.
Vamos então à prova propriamente dita. Acordei cedo e fui parra o Porto com o meu irmão, que este ano me deu apoio durante a prova, fazendo todo o percurso de bicicleta. Foi uma excelente ajuda!
Logo ao sair de casa constatei que o dia, apesar de estar bonito, nos traria algo pouco agradável: vento. Na verdade, a combinação do frio matinal que já se sente nesta altura do ano com o vento que soprava era uma combinação nada agradável e que, para quem se estava a preparar para correr uma maratona junto à costa, assustava um pouco.
Fiz os últimos preparativos na zona da meta, altura em que cumprimentei alguns amigos (falarei disso noutro post). Quando soou o tiro de partida comecei a minha prova dentro do que tinha definido. Parti ao lado do Fernando Andrade, que me tinha dito no início que não ficaria triste se acabasse até ao tempo de 3h45m, dizendo-me que contava passar à meia maratona em 1h50m, exactamente o meu plano. Lá arranquei com ele, fazendo ao seu lado a subida da Rua Júlio Dinis. Cedo percebo que o Fernando não iria cumprir os seus desejos, pois começou a imprimir um ritmo bem mais rápido.
Determinado em seguir o meu plano à risca, deixei-o ir. Encontro no meio do pelotão o treinador de futebol Domingos Paciência, que seguia ao mesmo ritmo que eu. Deixei-me ir ao seu lado durante alguns metros, mas logo que chegamos à Avenida da Boavista e a estrada começou a descer, ele aumentou o ritmo e, mais uma vez, deixo-o ir e continuo no meu ritmo.
Mesmo com estes cuidados, o primeiro quilómetro foi cumprido em 5:05 e o segundo em 4:55. Insatisfeito comigo próprio, coloco o “pé no travão” e tento ir um pouco mais lento. Nessa altura passa por mim o meu amigo João Andrade, do Rompe Solas, que há dois anos fora incansável no apoio que me deu quando estava em dificuldades. O João estava confiante e disse-lhe que iria andar “devagar”, pelo que também o deixei seguir o seu caminho. O terceiro quilómetro é percorrido a 5:00, ainda assim um pouco mais rápido do que o desejado.
Ao passar em frente ao Estádio do Bessa passa por mim o João Meixedo, que segue também num ritmo mais rápido do que o meu. Saúdo-o e digo-lhe, em jeito de brincadeira, para seguir, que o apanharia mais tarde. Pouco depois disso passa por mim o balão das 3h30m, que seguia com um grande grupo de atletas atrás. Deixei-os passar e continuei no meu ritmo. O quarto quilómetro foi cumprido em 5:09, o quinto em 5:08 e o sexto em 5:02.
Entre o nono e o décimo tomo a primeira dose de gel, que o meu irmão me entrega. Nesta fase estamos a percorrer a novidade do percurso, nas ruas de Matosinhos. É um percurso que se faz com facilidade, com a excepção do regresso ao Porto, em que sentimos pela primeira vez os efeitos do vento.
Tendo partido bem na frente, a sensação mais forte que tive nesta primeira fase foi a de me sentir a ser ultrapassado por muitas centenas de atletas. A maior parte seria da Family Race, mas também muito eram maratonistas e julgo que nesta fase da prova não terei ultrapassado ninguém. Com aquilo que classifico de “pensamento de maratonista”, não me preocupava nada com essa torrente de gente que me passava, pois sabia que, na hora da verdade, os papeis iriam inverter-se. Afinal, também eu já tinha feito o papel de muitos desess…
Ao passar no Castelo do Queijo dá-se a separação das “espécies”: maratonistas para a direita e os outros (a malta da Family Race) para a esquerda. Esse momento é sempre marcante e transmite-nos uma saudável sensação de maioridade no mundo da corrida.
O décimo quilómetro cumpre-se em 5:12 o que dá um total de 51m09s para os primeiros 10. Era um pouco mais rápido do que o planeado, mas sempre havia a descida da Boavista para justificar o “incumprimento”, que não me preocupava nada, pois sentia-se muito bem. Nesta fase o vento ia fazendo os seus estragos. O decimo primeiro quilómetro foi cumprido em 5:18, o decimo segundo em 5:10 e o decimo terceiro em 5:16.
Apesar da longa coluna de maratonistas, nunca tive, ao longo de toda a prova, nenhum grupo ou sequer atleta singular que me acompanhasse por muito tempo. Creio que nunca deverei ter seguido mais do que um quilómetro na companhia de ninguém em especial, o que se fica a dever ao facto de ter um plano bem definido a cumprir. Fruto da forte ventania que se sentia de forma especial entre o Passeio Alegre e a Ponte da Arrábida, o decimo quarto quilómetro foi cumprido em 5:19, o decimo quinto em 5:20 e o decimo sexto em 5:16.
Fruto do vento percebi duas coisas. Por um lado houve alguns quilómetros em que tive de despender um pouco mais de esforço do que o esperado para cumprir o plano e por outro não me foi possível baixar o ritmo depois dos 15 km conforme estava previsto. O décimo sétimo foi cumprido em 5:12 e o decimo oitavo, altura em que ingeri o segundo gel, foi feito em 5:24, acabando por ser o pior de toda a prova. A pequena folga que tinha conquistado na descida da Boavista já estava gasta. O décimo nono quilómetro foi cumprido em 5:21 e o vigésimo em 5:19. Já levava 1h44m04 de corrida, o que dá um segundo parcial de 10 km em 52m55s o que confirma os fortes estragos causados pelo vento.
O vigésimo primeiro quilómetro foi cumprido em 5:12 para uma passagem à meia maratona com cerca de 1h49m30s, totalmente dentro dos meus planos. Sentia-me muito bem e com a certeza de que não havia preocupações a ter com o desgaste da primeira metade da prova.
A segunda novidade do percurso, com a passagem pelo coração da Ribeira e a Praça do Cubo animava-me bastante, pois introduzia ainda mais um pouco do pitoresco do Porto na prova. Recordo-me de fazer a subida da Ribeira para a Ponte D. Luís, uma rampa curta, mas muito inclinada, em plena aceleração, tal era a minha confiança nesta fase. O vigésimo segundo quilómetro foi cumprido em 5:14.
A partir do vigésimo terceiro quilómetro, e já sem o efeito do vento, consigo finalmente fazer o aumento de ritmo que tinha planeado. Fi-lo em 5:02 e o vigésimo quarto já é cumprido em 4:46. Estávamos a caminho da Afurada e nesta altura começo a fazer aquilo que já vislumbrava na fase inicial: a ultrapassar mitos atletas que seguiam à minha frente. Tive essa noção de forma muito real em todo o percurso realizado em solo Gaiense. O vigésimo quinto quilometro e o vigésimo sexto foram feitos em 4:52 e o vigésimo sétimo em 4:53. Estava eu a chegar à Afurada e vejo o João Meixedo já de regresso à Ribeira de Gaia, embora a curta distância. Percebi que ia em quebra rapidamente o comprovei, pois não demorou muito a que o tivesse alcançado. Afinal, a brincadeira tinha-se concretizado, a consegui mesmo apanhá-lo!
O vento que se fazia sentir voltou a incomodar bastante no regresso da Afurada, pelo que o quilómetro vinte e oito e vinte e nove foram cumpridos em 4:58 e o trinta em 5:00. Nesta fase levava 2h33m51s de prova e o terceiro parcial de 10 km tinha sido cumprido em 49m45s, um pouco abaixo do desejado. Já tinha tomado o meu terceiro gel e sentia-me bem. Continuava em bom ritmo, a ultrapassar muita gente e mantinha a confiança de que iria acabar bem, embora já tivesse a noção de que seria praticamente impossível acabar com um tempo sub 3h30m. Era um pequeno revés, mas que não me desanimou nada, pois as sensações de corrida eram muito boas.
Depois da Ponte D. Luís temos de fazer uma pequena incursão em direcção ao Freixo para, finalmente, começarmos a correr em direcção à meta. É com essa a força mental transmitida por essa sensação de já estar perto do fim, que faço o trigésimo primeiro quilómetro em 4:51, o trigésimo segundo em 4:57 e o trigésimo terceiro em 4:53. O trigésimo quarto é feito em 4:40 (talvez haja o efeito do túnel da Ribeira no GPS) e o trigésimo quinto em 4:54. Já sentia algum desgaste, mas estava com força nas pernas e não tinha grandes dúvidas de que as coisas iam correr bem.
De há alguns metros a esta parte tinha no meu horizonte o João Andrade, que ficava cada vez mais perto à medida que a prova avançava. Percebi que também ele ia em quebra e, curiosamente, mais ou menos no mesmo local em que, há dois anos atrás, tive de o deixar ir, passei por ele e continuei no meu ritmo em direcção á meta.
Tinha pedido ao meu irmão que me entregasse o último gel entre os 34 e os 35, mas por alguma razão, ele não estava lá, só mo entregando já depois do trigésimo sexto, que foi cumprido em 4:55. O trigésimo sétimo foi cumprido em 4:56 e senti-me um pouco mal do estômago com a toma do último gel, que nem sequer tomei todo. Não sei se por causa disso, mas comecei a sentir dor de burro, o que me incomodou um pouco. Com esforço continuo a marca, conseguindo fazer o trigésimo oitavo quilómetro em 4:57. A dor não desaparece e comprimo a zona abdominal com a mão para tentar aliviar um pouco. O meu irmão diz-me que já se nota que a passada não vai tão solta e só me lembro de lhe responder que já não comandava a máquina: corria em piloto automático e as pernas eram como autómatos que faziam aquilo para o qual estavam programadas!
Era, finalmente, o sinal de uma pequena quebra. Apesar de continuar a ultrapassar muitos, o trigésimo nono já foi cumprido em 5:11 e o quadragésimo em 5:14. Estava com 3h23m18s de prova, o que dá um quarto parcial de 10 km em 49m27s. Estive quase 2 minutos abaixo de pretendido inicialmente, o que não deixa de ser excelente.
Estávamos a chegar novamente ao Castelo do Queijo e a distância para a glória já só dependia da subida da Avenida da Boavista. Apesar da quebra, sentia-me com força para esse pequeno trajecto. Tinha acabado de passar o Luís Sousa Pires, Porto Runners, um conhecido elemento do pelotão maratonista nacional, que seguia visivelmente perturbado por um problema físico. Durante a subida da Avenida da Boavista acabo por passar ainda o Virgílio, do Rompe Solas, um simpático atleta que, aos 58 anos de vida se estreou na maratona. Cheguei a vê-lo à frente do balão das 3:15 a meio da prova, mas também ele pagou o esforço inicial e acabou alguns metros atrás de mim.
Depois desta prova sinto que já sei dominar a maratona. Sei o que fazer para a preparar e sei como me comportar para a fazer sem sacrifícios desnecessários e potenciando as minhas capacidades do momento.
Custou um pouco mas valeu. Aliás, não me posso queixar de não ter sido avisado, mas nestas coisas somos como as crianças. Aprender requer experimentar e as “cabaçadas na parede” fazem parte de qualquer curva de aprendizagem.